Uma visão sobre a nova China
Por Guilherme Arruda*
Esqueça a China que você ficou acostumado a ver nos documentários e em notícias de jornais e revistas. Ela não é a mesma.
Dentro de cinco meses o governo celebra os 30 anos das reformas políticas e econômicas que abriram o País ao mercado internacional. Muita coisa muda em três décadas, mas nada foi tão grandioso quanto o que se vê lá hoje. Tudo é superlativo: a população, os viadutos, os arranha-céus que vão ao encontro do céu e, infelizmente, a poluição. Este, talvez, seja o preço mais alto que estão eles pagando pelo processo gradativo de ocidentalização.
Dito assim parece fácil. Vamos combinar, no entanto, que nada substitui você testemunhar tudo isto ao vivo. Não conheci a China como gostaria, mas pude ver um pedaço dela visitando a cidade de Guangzhou, no extremo sul, em abril passado, acompanhando um grupo de empresários de Caxias do Sul.
O primeiro desafio é enfrentar a longa e cansativa distância: somando horas em vôo e troca de aeronave são quase 30 horas para ir e mais 30 horas para voltar — partindo de Caxias do Sul, claro. Em grupo, entretanto, as coisas se tornam mais fáceis. Ao pisar em solo chinês a reação muda: o que antes era desafio se transforma em sentimento de descobertas. Afinal, são cinco séculos de muitas lutas e uma cultura singular, que desafia o tempo.
Impossível resistir ao sorriso fácil do povo chinês quando apontamos as nossas máquinas digitais. Eles reagem com olhar de curiosidade, como que querendo saber como nós vivemos, do que gostamos; como é o nosso dia-a-dia. É uma gostosa troca de dois mundos tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos em alguns aspetos. Por exemplo: lá estão nomes conhecidos de roupas, de perfumes, carros e relógios que estamos carecas de ver nos nossos shoppings.
O progresso chinês não encontra obstáculos. Gigantescas torres de edifícios residenciais e comerciais erguem do chão; são centenas; muitas sustentadas por estruturas de bambu, pois falta madeira na China. Na verdade, ainda falta acontecer muita coisa, mas isto é assunto para profissionais de outras áreas.
Três décadas atrás (imagino) visitar a China era uma experiência ousada, até pelo severo regime político que pregava justamente o isolamento do País em relação ao resto do mundo. Lembro de uma passagem do jornalista Samuel Waimer (dono da Última Hora) e de sua mulher, Danusa Leão, contada por ela em seu livro de memória (Quase Tudo), quando foram recebidos por Mao Tse Tung. Fiquei pensando: que coisa fantástica. Foi a primeira lembrança que eu tive ao passar pelo serviço de imigração chinês.
Depois de visitar o País tenho convicção que, qualquer vaga lembrança que se tenha sobre a China, será dissipada logo no primeiro dia.
A China continuará a despertar a curiosidade pelos próximos milênios e a sua influência na economia mundial será maior, tanto pelo lado positivo, quanto pelo lado negativo. Não incluir o País na rota dos negócios é o mesmo que dar as costas a algo — seguramente — inquestionável.
* Guilherme Arruda é jornalista e correspondente do Jornal Gazeta Mercantil, e participou da Missão Empresarial à China da Aggatour e Link International Business, em abril de 2008.